quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Pequeno pecado

Pequeno pecado
Rechacemos a distância que traz dó, dor e dormência
Respirações nossas, a anos-luz de distância, latejam a querência e trazem frio ao agasalhado
Parte a nossa parte mais bonita em pedaços

Desculpas aceitas
Já que não se escuta a boca a pedir, percebe-se o coração a gritar
Ouve-se, morena, o muro de lamentações que tanto se tenta demolir
O muro entre nossos lábios, pintados com o seu batom
Sinto a sina, só saudade soa assim
Delírio mútuo de palavras que ainda nem da boca saíram. E hão de sair algum dia?
Vontade e luta contra o tempo que insiste em tentar deixar passar, em tentar deixar pra lá

Pequeno pecado
Frases no papel, longe de virarem telegrama
A carta na manga não é uma carta a ser enviada
Tampouco as frases conseguem diferenciar o quê dos quais, quases e poréns
Tem palavra demais, pra musa mais que demais, induzidamente endeusada
E belo seria, se o primeiro poema se tornasse frases ditas ao pé do ouvido

Quase que decola
Antes de palavras, antes de chegar a hora
Agora que a vontade aperta, se vê uma velha verdade, tinindo em nossos velhos olhos nus: o que importa não é o jeito de se merecer
Depois de tanto entrave, só é importante acontecer... decola?

Deus dos poetas, pequena oração: se uma outra estrofe a trouxesse pra cá, eu seria trovador de uma só poesia.


Jefferson Procópio

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

impasse


quero dizer adeus... aqui mais uma vez
por todas as coisas que a gente não fez
segurar. esticar a ponta do barbante e equilibrar-se
tentei. tão difícil foi aguentar o peso. e te encarar face a face

se houvesse indícios, se a gente se amasse
não nos perderíamos assim tão logo, no início da frase
eu. que sempre fui, que sempre achei ser bom ser tão cortês
cedi. até que chegamos ao ponto que envelhecemos cem anos em nosso último mês

por mais que a dor faça com que meu coração escasse
mesmo que a primavera deixe de lado o gosto francês
o foco. o coração do poeta, frente ao atemporal, revigora e renasce
perdi. mas se refaz intacto e se joga ao alto, pra talvez outra vez se partir em três

deixo o rosto de lado, pra não ver a nitidez
de algo que já foi, antes de realizar-se
até agora. mudo o semblante e a direção, achei outra estratégia no xadrez
nada achei. mas me agarrarei nesse caminho, sem dar chance nenhuma ao quase

segurar tentei
eu cedi
o foco perdi
até agora nada achei

Jefferson Procópio

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Musa


Musa
Me usa, desusa e abusa
Que me joga ao vento e me tira o ar
Deixa o seu perfume pra poesia despertar

Alada
Não toca o chão
Que idealizada, é elevada deusa
Anjo que guia em silêncio nossos destinos cruzados
Que me leva à luz, me tirando da escuridão

Rasa
Rosa de fino trato que é regada a cada letra
Planície dominante do meu rasteiro coração
Olhos rasos de água, verdes como o mar
Desprovidos de mágoa, com medo de magoar

Abusa
Vende amor barato pra aumentar demanda
Vicia o coração do poeta e depois se manda
Se faz de traiçoeira pra ganhar eternização
Faz de tudo, leva meu mundo, porque sabe que é a musa

Chora
Traz temporal em chuva de verão
Sorrindo faz passarinho voar baixinho em tarde de primavera
Abraço intocável que aquece as noites de inverno
Faz das folhas caídas do outono, papel pra rabiscar, pra eternizar pra musa

Jefferson Procópio