quarta-feira, 12 de abril de 2017

sinestesia sem anestesia

revivi.
já que perdi o controle da minha vida
meu eu lírico agora é outrem:
dores deixadas na estrada, sangramentos, lamentos,
o início, chegada, com gosto de partida.
sou noite, estrada infinda, sou estrago que ninguém traz
e nem traga.

suicidei-me.
meu espírito tanto elevou-se, que se afastou,
de meu pelego ego, que muitos nós desatou e desandou.
um desespero distorcido em espaço-tempo:
ego e eu, dando fora a mim, sabotagem.

arrependi.
o peito que não cansa de bater, taquicárdico,
tão indigesto fui, minha azia é vulcânica.
braços prostrados por tanto querer abraços e nunca se abraçar.
cérebro que faz a mão tremer na caneta.
mãos que não suportam o fardo do abstrato se tornar concreto.
rabiscos de ondas emitindo silêncio ensurdecedor. dor.

imersei.
como, não sei. eu tanto amei que sempre voei.
todo dia, queda livre, pra render livro, pra tentar ser livre.
mas traços da vida traçada me contradizem.
minha sentença me lavra. minha sujeira me lava.
não sentia medo de me jogar ao ar e mergulhar.
no desafogo de meu fogo, me orgulhei,

deságuo.
gozo quente que prefere não sair. implosão.
rio termal que quente cai no oceano e não consegue esfriar.
medo de se perder e de ser puro corpo e alma.
espírito com medo de se rebaixar ao ego, sacanagem.

se o mar se animasse a me amar eu me afogava,
se nas favas que me joguei, me retirasse,
poderia renascer não só na poesia mas na vida.
pra querer ser fogo quente, rio em brasa,
preciso de uma calma pra viver o carma e ser darma.
não drama.