quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

rios de história

rio que alegra a tarde,
fluido em lavar a alma.
querem lhe fazer barragem,
mudar seu curso, calma e drenagem.

rio doce era real, enchia o vale.
ontem a vale destruiu o rio doce.
a corrente dos afluentes
sujou-se da polpa dos influentes.

na serra da mantiqueira e do espinhaço,
a tragédia era anunciada, e repetiu-se.
interfere o minério
veloz nas cascas do rio casca.

o real é fruto da mudança,
as águas mudam quando tu se banhas.
o combate entre os contrários
reveza a tensão e o prioritário.

tu não entras duas vezes no mesmo rio,
já se tornaste outro, mudaste até o riso.
rio fluido carrega o reflexo,
e a matéria decomposta de Narciso.

mamãe oxum chora,
tenta limpar a água e a memória.
mas ninguém vai apagar essa marca,
quem que vai punir a samarco?

quem vai curar depressão em Mariana,
quem é capaz de reconstruir Bento?
quem é capaz de sentir o vento?
quem pode plantar essas sementes?

só queria me banhar no riso do profundo rio
das emoções da pedra preta, que me atravessam, e me sentir curado.
desaguar em seus oceanos, ir até o fundo.
velejar em nossos antepassados. 

eu te quero toda pra mim.
é assim desde que nasci.
conheci o nosso eterno.
choro os rios de nosso fim.

mamãe oxum, transborde a minha lágrima,
lava minha memória, rios de história.
nossa senhora, abençoe o tempo, e os horários.
seque a lágrima dos operários.
ouça a súplica oração desse povo.
e nos perdoe. de novo, e de novo, e de novo.

Jefferson Procópio