Falta luz
Mal posso sentir minha consciência
Enquanto me entorto, enquanto minha mente pira
Pira por segurar um último fio de desatino
Que não cessa, que precisa se quebrar
Mas e se eu for feito de vidro?
Já me senti assim: várias vezes, variáveis de você
Todos os dias me apaixono, me desapaixono
Você sempre me parte, desfragmenta
E eu permaneço, segurando o último fio de desatino
Falta pão
Esse pão de cada dia, feito pra dar forças
Pra curar mais que a fome, pra calibrar a insanidade
Sobra migalhas, migalhas que vêm de você
Vêm pelo vento, e chegam a mim
E eu me insisto em tentar me saciar com o tão agridoce nada
Mas e se eu quisesse morrer de fome?
Estou nessa greve há um bom tempo, afinal
A quantidade diminuta de atenção, de auto-atenção
É essa vontade de morrer de fome que me tira atenção de mim mesmo
E me concentra a você, a quando você dará mais um fragmento de ti
E eu me insisto em tentar me saciar com meu coração partido
Falta sonho
Vou sem paz me procurando onde não acho
Lugar pra mim, em seu mundo que me despacha
Que me deixa perdido, no universo que já foi meu
E foi remapeado, trocando também as fechaduras de cada porta de sua percepção
Mas e se eu não quisesse acordar desse pesadelo?
Se ele no fundo me deixasse com vontade de continuar caminhando
Eu posso estar atraído por esse naufrágio
Posso estar gostando de sofrimento, por vontade de não deixar nada morrer
Tudo pelo último fio de desatino
Eu vou nadar contra a maré, vou me banhar no orvalho
Vou me lavar, vou purificar minha alma
Vou versejar, até achar a resposta
Até me sentir resoluto
Até dizer que não falta mais nada
Até dizer que não me falta você
Jefferson Procópio