sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O PESO DA PEDRA INERTE

O processo de produção de um sonho,
Alienação do trabalho sobreposta.
Itabirano, o operador da máquina minerária com o coração
pra encherem o vagão. Expropriaram o explosivo, implodiram a ilusão.

Minha infância, tempo de meu pai vestido de vale, em meu imaginário, herói.
Trinta-e-três anos de turno e insalubridade: mundo real, verdade dói.
Criou-se masoquista, orgulhoso do minério. Construtor dos caminhos
e vagões a setenta por hora.

Sinto tal herança mas não consigo carregar o mesmo sonho.
Em meu organismo, o devir do minério é indigestão.
Em meu lirismo, exploração é apocalipse.
Enganam a psique. anunciam o eclipse.

A pedra inerte no meio do caminho criou órbitas. Fundou o Brasil.
A ordem do progresso foi mentida: livros lidos ao contrário.
Nas bacias hidrográficas, o caminho se arrastou, a pedra se arrastou.
A lama vai devagar.

Vale a pena o sonho? (ou vale, a pena do sonho!)
Itabiranos na rota do minério tiram o ferro do sangue e das montanhas.
Diante da venda do medo e do domínio do plástico, me desprendo.
Sou flor irrompida e semeada no caos e na náusea.
Vivenciado e videnciado pelos gauches sonha-dores. Desde outrora até a aurora.

Como pode, nesta síndrome de perseguição e confusão da realidade,
onde itabiranos ditam o ritmo do quadrilátero ferrífero,
nesses vai-e-véns dos vinténs de valores míseros e irrisórios no câmbio,
esta flor crescer, concreta, e se multiplicar nas entrevias poéticas?

Mas como podem, na síndrome da alteração e esquecimento dos cartoes postais,
itabiranos entrarem nos ritmos desenfreados da linha férrea, e se atropelarem?
A memória itabirana descarrilou ao passo que tentou acompanhar o coração até o final.
Se esqueceu da barganha e da venda: ele para de pulsar ali, no bolso do patrão.

Itabira, seu patrimônio será tombado pois és seiva elaborada.
Alimenta a superfície do planeta e projeta telas, pesquisa e desenvolvimento.
Mas vê-se de longe a obsolescência programada.
Ciclo de vida em transição contrária: do etéreo, vai pro cemitério.

Visitas de amores distantes na terra do mato dentro não existem mais.
Combinado estava o passeio na praça,
mas a terra se transporta pra qualquer lugar longe de si.
Fatídicas relações de amor: antes de terminarem, já a sete palmos do chão.

Operário, não chore, não se demore. Não adore a dor.
Essa vertigem justificará a revolução dos afetos, sem armas, de seus netos.
Eles poderão ser médicos, inspirados pelos avôs cirurgiões
que, em sinestesia e sem anestesia, tiraram das almas o ferro, depositaram nos vagões. Nós somos os netos e netas!

Acabou a paciência da vila, e à sombra a última viagem,
correu estrada afora minas a vitória. Nada alcançou.
E respostas não encontrou pra pergunta que mantém viva a vida:
De que são feitos os sonhos?

"O ser humano é poeira de estrela", conclamam auto-ajudas por aí.
E itabiranos, nós, somos nós entrelaçados, poeiras férricas das poeiras cósmicas
que dão cor e gosto ao sangue, perpetuam o ciclo vida-morte-vida.
Sentimos mas não estancamos, a sangria. Pelo bem maior? Ou pelo mal da dívida?

Jefferson Procópio

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

da chegada da primavera

da chegada da primavera,
fênix fora do cinzeiro.
seu olhar residindo no meu,
seu cheiro no meu travesseiro.

calor irradia nossos corpos e caminhos,
precisamos caminhar com calma e devagar.
do contrário, sangue e suor e sumiço.
a brisa do eterno agora retorna: reencontro de almas é isso.

o solo, ao fim do inverno, transmutou minhas raízes.
descarrego toda mágoa do mundo, luz em minhas cicatrizes
refloresço, tão terno; te assisto pousar enquanto voa.
em bem querer, me fecundo. primaveras, esperem e verão.

a pele quente ao sol nos mostra: estamos vivos.
brilhos de afeto e recomeço amenizam o que foge aos olhos.
livros decerto antigos, psicografados, reencontro de marília e dirceu.
folhas em branco renascem, novas árvores, poemas, histórias. você e eu.



a triste alegoria de um samba alegre


Aos que presenciam o reencontro, nossas trocas de olhares.
Parece até fácil traduzir emoções em frases.
O ontem foi tão longo, mês passado nem te vi.
Nós damos esperança pros amantes que dançam nos bares.

A rotina me prende ao asfalto, a menina me faz falta.
Aprendo a lidar com a eternidade, a cabeça nos ares.
Longe de você tanto envelheço na cidade.
Quando topamos, rejuvenesço, breve encontro de cem anos.

Quem ouve este samba banhado em felicidade
Nem imagina a tristeza, elemento surpresa, o devir.
Sentir toda a ilusão, e toda carga do caminho
Amor nosso, flor nascida à tempestade, pouco espinho.

Cicatrizam nossas marcas, toda dor da despedida
Transmuta a incerteza, após a morte vem mais vida.
Do medo de não ter, do ciúme, do perder
Me desprendo. Hoje, eclipse, você vem, só quero estar.

A tristeza de compor o nosso fim, me decompor.
Início dessa história toda torta de poeta
Que procura pela musa que fugiu por entre os rios
e deságua... maré de nossos amares, oceanos, poesia renascemos.

Mesmo que eu me oponha com teu erro do adeus
Eu perdoo, vida segue, o que é certo ainda vive
Perdi a compostura com a ternura do seu oi meses depois
e o samba triste escondido em meu eu, gritei e sorri.

25 de outubro de 2018 20h52 cabei o poema valeuuu

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Trilhas do interminável adeus

No tempo presente,
Sou trem que não para,
Pressa rara, Pé na estrada.
Não exporto pro Japão as lembranças dos vagões.

Sigo em frente, movido por minha alma de vapor.
De tudo o que eu vi, vivi e senti,
Sou a sangria da montanha, coração férrico que tudo habita.
O amor me levou ao céu, mas pequei pelas juras.

Entre passado e presente, passo a passo, nem sempre consciente, sigo.
Na dimensão concreta do trem que transpassa e atravessa a realidade, envelheço.
Abastecido pelos vagões da memória que já descarrilaram no caminho, lamento as perdas.
E no infinito vasto que percorre em mim, ainda lhe sinto no estar da ausência.