sábado, 8 de julho de 2023

Confidência do não itabirano


Meu nome é Jefferson, abençoado por meu anjo da guarda.
Luís; nome duplo, à luz de entes familiares.
Eu sou Procópio. Pra você, ópio.
Sou Kelles, sou daqueles.
Aquele do ópio.
Um ópio daqueles.
Escorpião do minério.

Digo que sou de Itabira, mas não.
Filho da pré-eclampsia urgente,
Forjado pro nascimento aos oito meses.
Despreparado pra respirar, pela primeira vez, o fiz em Belo Horizonte.

Confidência do não-itabirano.
Itabira é minha alma.

Respirei, pela primeira vez, longe da poeira sonífera da destruição da cidade
De onde meus pés já caminharam, canto a canto, por todas as ruas onde as pessoas se arrastam.
Forjado do nascimento da terra natal.  Distante da terra onde vejo e vivo, das pedras e pessoas preciosas.
Amigos, raízes de empatia. Conexão.
Vós sois razão que me faz vir e voltar a Itabira.
Viravoltear.

Nasci longe dos hospitais itabiranos. Desviado tal quanto as verbas públicas.
Exportação do nascimento, flor na lama da mineração.
Fui devolvido, no primeiro mês de idade, à cidade que deveria, mas foi incapaz de conceber-me,
após amarelão e encubação.

Sou um filho do ferro exportado tal
qual meu pai por trinta-e-dois anos carregou.
Meu pai, vestido de herói, orgulhoso e inflado, durante seis horas por dia.
Na carteira, operações de máquinas pesadas. Na prática, chefe do processo de supervisão. Refém da hierarquia. Dono do conhecimento tácito.
Dezoito à meia-noite. Meio dia às dezoito. Seis ao meio-dia. Zero hora.
Pai, que dia que é que cê ta de folga?
E lá você sempre esteve, em escala. Sua luta e seu trabalho, minha escola.
Até que de tanta insalubridade, tu recobras processo na justiça.
Aposentadoria forçada e celebrada. Coroa ao rei.

Minha mãe é uma guerreira.
Dona de tudo. Cuida de tudo com zelo de jardineira.
Casa, irmãos, estudos, casamentos, filhos, bar, recomeços, coragem e sorriso.
Fé. Faz a minha vida e história ser mais que a de Robinson Crusoé.
Eixo da Terra, carrega o mundo.
Jesus na frente, acima de Deus só a coroa.
Força de filha de Oxum,
Porto seguro de um mar de amor.
Onda que nada de modo fácil e profundo.
Intuição sensitiva.
Laço eterno.

Eu, primeiro vagão de uma locomotiva que me motiva a amar e ter compaixão.
Irmãs, extensão do meu coração.
A que cresceu comigo, barulho efusivo de percussão de jazz, zica.
A que chegou, eu adotei, irmã da pele preta.
Filhas que não saíram de mim, motivos de minha oração.
Minha infância se eterniza.
Graça.

Minha melancolia, divertida vontade de amar,
eu reconheço em seu espaço, Itabira, musa mor.
Desorbitada em si mesma, aponta e desemboca em todo o quadrilátero,
Berço do terror e da destruição dos sonhos que nunca morrem.
Outrora esperança dos que soltavam dinamites no pico do Cauê.
A esperança desapareceu junto ao mais lindo cartão postal.

Retratada e eternizada pelo arrebataento da distância (não da essência) do poeta maior que respirou, em pensamento, seu ar.
Pela ausência presente e retrato na parede que explica o carma.
Vagões de um trem que buzina pra todos ouvirem: são corações. Ora cheios, ora vazios.
Trilhos infindos e trens que vão e vêm. Somem e reaparecem no caminho.
Feito meu amor, plataforma que transita nestes meus trilhos de devir.
Trazida pelo outono, desmanchada pelo inverno. 
Transporta o que eu sinto pra um lugar distante de nós dois.
Explora 
 munida de verde ao redor da pupila, luz néon de serenidade.
Batom vermelho, imaginário.

Nunca saíram da minha trilha os tons etéreos
da tua imagem, de teu reflexo, sequer saíram de meus versos.
sua presença, sua pré-ausência.
Durante a ausência, assenti e a senti. Premeditado por Drummond.
E quando tu estás aqui, e quando eu estou aí, nós juntos.
Fonte de devir! À musa me refiro e me misturo.
Quero navegar nestes mares de fertilidade, ser gozo e dádiva que dá vida.

Meu cartão postal desbotado.
O tempo não muda, nem o cenário.
Some o Pico do Cauê.
Somente os cartões postais. Sem centro histórico.
Alvenaria barata substituem ruas de brilho ladrilhadas.

E o sonambulismo é o mesmo.
Será de fato? A censura e opressão, de fato, existe?
Cartões postais furtados, camburões lotados.
Sobrevive a periferia a mais um ataque e ofensa.
Afrofuturismo: pretos resistem, são o presente e serão o futuro.

Ao fim de tudo, o maior cartão postal é meu orgulho de todo este ferro.
O labor e ensinamentos de meu pai, o labor e amor puro de minha mãe.
E para o mundo, Itabira, teu maior cartão postal é o itabirano,
Seu sangue férrico, suor sujo, lágrimas de expurgo que saem gritando.
De braços cansados em berços enferrujados.
Conscientes que as boas novas eram só boatos. Colecionando estragos.
Olhando ao redor pra tentar entender a si e nada reconhecendo.
E este conjunto de mentiras e desilusões de nada vale.

Jefferson Luís Kelles Procópio


sábado, 1 de julho de 2023

enquanto vivo e corre e colide

enquanto vivo pelos afetos que vivi e vivo
pelos rabiscos que tatuo à folha,
pelos fluxos que tangem o movimento, dançam,
queimam junto à minha rotina,
recolheita da planta do autoamor que tateio
por sentir e perceber o momento,
pra pressentir e conceber o perdão...

enquanto vivo, morro, vice-versa.

as marcas do invisível deformam
a percepção do espaço tempo agora, onde estive?
os gritos do indizível que jogam pra fora,
pela janela do oitavo tropeçar ao andar,
as roupas velhas que, sujas, guardei cá dentro.
sangra para e pelo mundo o meu coração.

lembranças do cativeiro que me encara e acolhe,
me mora na memória a história do mundo
que se mistura à minha
toda vez que me edito ou me deito.
é o mundo que me cerca até morrer a idade
ou eu quem me sentencio às algemas da liberdade?
o eterno que foi e é, em oração, silencio.

sou eterno.








corre até colidir e colidem
ideias ideais cidades
falcatruas, nossas, tuas, falsidades
corre e colide a lama no asfalto
no consumismo corre e colide a liberdade
enquanto a lama varre e agride
prencúncio de um apocalipse
negligenciado
sem trombetas
sem cirenes
nenhum anjo bom ou mal
só capetas e capital

corre e colide
no rio
no pólen
na nascente
na mulher grávida
no meu rim
no telejornal
na maldade
fazem o que vale enquanto se cabe

no aborto
no castigo
inconsequente
da consequência
negligenciada
lama derramada
antes da criança chorar
antes do leite jorrar o seio
na hora do anseio e de sólidas solidões
acabam com vidas
não ha mais empregos
não há moradas e nem vagas
mas sobram vagoes

o coração morre ao parar de pulsar
não acreditam na vida pós morte
por isso mineram até a estaca zero
por isso a lama corre e colide

morre a vitória régia
sobra privilégio
falta o verde e a verdade
lucram com a tragédia
lavam a consciência
com solidariedade
boas ações cabem no travesseiro.

lutam os desterritorializados
pelo justo, pela vida
e são criminalizados
enquanto desinstitucionalizam
as políticas públicas
corre e colide o falso moralismo
contra a mulher tentam obrigar
o uso da túnica
máscara única que esconde
o rosto de Deus

o ódio se libera
da explosão das lágrimas
e se prolifera
manipulado
o feitiço só acaba com olhos nos olhos
enquanto a ceifa do fascismo
nos assombrar
enquanto o medo de amor
moldar a líquida modernidade
a água será insalubre
e a solitude será a única saída

cheios de uma vida de muros
sussurros
surras
murros na cara
morre a próxima vida
antes de concebida
a lama sacrifica
e lapida a lápide
da sociedade
tal quanto a nobreza
da antiguidade

segunda-feira, 18 de março de 2019

fascinação fascismo nação

gritos de ameaça em nome da ordem
pecados em nome do bem
ânsia desperta ignorância

sangue nas calçadas em nome da limpeza
ódio em nome do amor
erro meu em nome de nós

erros nossos pelo inominável
tentativa e erro
auto-engano: ciclo eterno

fascinação
face sã
ali é nação

alucinação
alienação
fácil
faceta

faca
fascismo
desfaça!

contenhamos
a incalculável
conta.

o impagável,
irreversível,
arrependimento.

nossa consciência
implora
por um dilúvio.

nossa existência
grita
à procura do alívio.

e a nossa resistência,
nossa união,
hão de cancelar
este campo minado.

impossível
voltar no tempo
e desfazer os erros.

mas o governo
criou uma máquina do tempo
pra população.

neste agora,
o tempo está andando
pra trás.

direitos viraram coisa de esquerda?
canhotos novamente anomalizados?

ao centro
de tudo,
a falta de foco midiático

permitem que cada atrocidade
chegue a galope
com capitães do mato.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Mono-revolta

Um escombro em cada brilho único do olhar
Dados: sete bilhões de escombrados no planeta (exceto crianças)
A ganância revira a mente, e a deixa vazia
Vazia de emoções e cheia de vinganças

Ensaios sobre homicídio, sobre suicídio
A mão armada, faca, sangue frio
A sociedade fraca se põe por um fio
O sabor do fel se nota até debaixo d'água

Bares lotados de pessoas feridas
Que tentam com um gole de uísque achar uma razão pra vida
E quando pensam que acharam, perdem a euforia
Para a indigestão, que sugam o resto de suas almas e humanidades

A cada canal de TV que eu sintonizo
Me sinto mais perdido, e menos dono da verdade
A cada nova informação, eu sinto mais saudade
Do tempo que eu era leigo, e não sabia de nada

07/03/2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

uma frase muda o fim e o filme

te perco pra mais um instante.
aprendi, com o tempo, a contemplar a vida,
templo de milagres ou estragos.
perante o portal de um depois
a mim se apresentam, estrada, túnel, invisível.
eu sou a luz do meu caminho.

te senti presente antes.
como o canto do pássaro que prenuncia
o segredo de amores amarrados:
nos amamos mais e desfizemos nós. já foi.
os véus das dores de nossos amores sentiram alívio.
sinto nossas flores em meus espinhos.

rompe o ciclo do indescritível.
almas gêmeas em liberdade, diante
de sorrisos abertos e vagos
a um nova era do que será não sei, não seu, não meu.
sempre está aquilo que é e o voo do tempo gratifica
o livre arbítrio escrevendo outras linhas.

domingo, 6 de janeiro de 2019

vazio lotado

quando um mundo desmorona, imaginamos a queda sobre nossos ombros,
sentimos os pesos das escolhas ao primeiro passo, instante irreversível.
as consequências pesam as costas.

o risco: o agora se tornar um cabo de guerra interna
entre passado e futuro. o antes e o depois se expandem em lados opostos.
e de braços abertos, tento segurar e sincronizar mundos paralelos que não se conversam.

o último fio de desatino, gota que transborda a taça e afoga a própria sede.
a morte em vida é o novo ciclo. permita-se virar vapor.
ruínas ao chão, seja a estrada de seu caminho.