sábado, 1 de julho de 2023

enquanto vivo e corre e colide

enquanto vivo pelos afetos que vivi e vivo
pelos rabiscos que tatuo à folha,
pelos fluxos que tangem o movimento, dançam,
queimam junto à minha rotina,
recolheita da planta do autoamor que tateio
por sentir e perceber o momento,
pra pressentir e conceber o perdão...

enquanto vivo, morro, vice-versa.

as marcas do invisível deformam
a percepção do espaço tempo agora, onde estive?
os gritos do indizível que jogam pra fora,
pela janela do oitavo tropeçar ao andar,
as roupas velhas que, sujas, guardei cá dentro.
sangra para e pelo mundo o meu coração.

lembranças do cativeiro que me encara e acolhe,
me mora na memória a história do mundo
que se mistura à minha
toda vez que me edito ou me deito.
é o mundo que me cerca até morrer a idade
ou eu quem me sentencio às algemas da liberdade?
o eterno que foi e é, em oração, silencio.

sou eterno.








corre até colidir e colidem
ideias ideais cidades
falcatruas, nossas, tuas, falsidades
corre e colide a lama no asfalto
no consumismo corre e colide a liberdade
enquanto a lama varre e agride
prencúncio de um apocalipse
negligenciado
sem trombetas
sem cirenes
nenhum anjo bom ou mal
só capetas e capital

corre e colide
no rio
no pólen
na nascente
na mulher grávida
no meu rim
no telejornal
na maldade
fazem o que vale enquanto se cabe

no aborto
no castigo
inconsequente
da consequência
negligenciada
lama derramada
antes da criança chorar
antes do leite jorrar o seio
na hora do anseio e de sólidas solidões
acabam com vidas
não ha mais empregos
não há moradas e nem vagas
mas sobram vagoes

o coração morre ao parar de pulsar
não acreditam na vida pós morte
por isso mineram até a estaca zero
por isso a lama corre e colide

morre a vitória régia
sobra privilégio
falta o verde e a verdade
lucram com a tragédia
lavam a consciência
com solidariedade
boas ações cabem no travesseiro.

lutam os desterritorializados
pelo justo, pela vida
e são criminalizados
enquanto desinstitucionalizam
as políticas públicas
corre e colide o falso moralismo
contra a mulher tentam obrigar
o uso da túnica
máscara única que esconde
o rosto de Deus

o ódio se libera
da explosão das lágrimas
e se prolifera
manipulado
o feitiço só acaba com olhos nos olhos
enquanto a ceifa do fascismo
nos assombrar
enquanto o medo de amor
moldar a líquida modernidade
a água será insalubre
e a solitude será a única saída

cheios de uma vida de muros
sussurros
surras
murros na cara
morre a próxima vida
antes de concebida
a lama sacrifica
e lapida a lápide
da sociedade
tal quanto a nobreza
da antiguidade

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